Para Bem Usar é Preciso Experimentar
Estimados leitores aqui do blogue: pais, professores, alunos, pessoas abertas não só ao tema da acessibilidade, mas abertas ao tema da acessibilidade como uma via aberta, ampla e ferramenta para todos; hoje o post a que me propus dedicar trata-se de uma reflexão que creio ser também uma chamada de atenção para aqueles que apoiam por qualquer motivo um jovem com deficiência visual e ou para aqueles que ainda encaram esta coisa da acessibilidade como um bicho de mil cabeças: complexa, específica muito unidirecional. Não! Felizmente já não o é, mas ainda há muito caminho a percorrer.
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Se recuarmos no tempo, aos anos de 1995, ou até mesmo aos anos 2000, até 2005, mais ou menos, as opções que eram apresentadas às pessoas com deficiência visual, alunos dos variados anos, escalões e ou idades, adultos, trabalhadores, jovens ou não tão jovens, eram, muito gerais e frequentemente opções muito limitadas, quase sempre com as mesmas propostas de sistemas operativos, os mesmos leitores de ecrã, os mesmos periféricos, nem sempre porque o cardápio era pequeno, que sim, grande não era, mas era revestido de muito desconhecimento por parte de quem apoiava as pessoas com DV, e das pessoas que vendiam ou sugeriam os produtos. Estes últimos, creio que fosse o desconhecimento, mas também uma questão de negócio. Coisas da vida real, e quanto a isso, tudo bem. O problema nesse desconhecimento e nessas limitações das pessoas que apoiam é que depois quando um produto, seja ele qual for, surge, é quase que visto como a única hipótese; e ainda que sendo essa hipótese uma das melhores do mercado, sem conhecimento total das suas potencialidades, e de comparação com outras hipóteses no mercado, essa hipótese pode tornar-se uma limitação.
E perguntam vocês: mas, como assim? Vou descrever-vos um exemplo prático para que possam compreender como é importante quem apoia mostrar ao apoiado as diferentes hipóteses que tem.
Imaginemos então uma criança com DV, que desde que começou a estudar viu-se confrontado com necessárias diferenças e mudanças. O braille, a ampliação, a utilização da bengala, um estojo de desenho adaptado, em fim… Imaginemos também esse jovem a precisar e por isso a ter o seu primeiro contacto com a informática, e com novos produtos que precisa para a sua vida enquanto estudante. Usa o sistema que todos lhe disseram que deveria usar, sem conhecer mais que isso;
Usa o leitor que alguém cedeu ou vendeu, sem conhecimentos de outros leitores de ecrã;
Usa um braille Note (e aqui falo no meu caso pessoal), que não sente fazer sentido para a sua vida enquanto estudante nem lhe pareça que sirva as suas necessidades, com um idioma de sistema que nem tão pouco se aproxima do Português. E que não é de manuseio intuitivo nem com uma interação amigável com o sistema do computador, situação que traz, ou trouxe dissabores. Usar um sistema que ainda que abra portas, apresente limitações, não é nem pode ser um sistema completo para quem dele tanto precisa.
Se, como citei a cima, voltarmos à trinta anos a trás, no começo da acessibilidade, eu entendia haver mais limitações, mesmo porque as máquinas não eram o que são hoje em dia, nem havia a facilidade que se tem nos dias atuais, mas ainda assim, usar Windows, porque não sabia que havia mais nada, nem ter como escolher o leitor de ecrã mais adequado ao que enquanto estudante precisava, ou poder optar por um bloco de notas braille em português, ainda que mais limitado, ao invés de uma Braille Note em inglês, com funções que nunca entendi nem usei, teria sido muito mais fácil, muito mais rápida, também, a minha adaptação, pois creio que o interesse seria maior.
Não quero dizer com isto que Windows ou Jaws, ou qualquer outro sistema e ou leitor de ecrã é pior ou melhor do que Mac e VoiceOver, mesmo porque o intuito deste post não é comparticipar com guerras que só servem para marketing e em nada favorece o utilizador.
O que eu quero dizer com tudo isto é: É de suma importância que formadores, professores, pais, fornecedores, coloquem ao dispor do utilizador as mais variadas hipóteses, demonstrando tanto quanto for possível o que há e como se usa. Windows e Mac, vários leitores de ecrã. Um tablet ou qualquer uma das hipóteses, como brailleSense, braille Note, linhas braille mais simples ou mais completas que o mercado oferece.
Dizem-me agora vocês desse lado: Mas é uma utopia tudo isso. São produtos caros, e muitos deles nem estão disponíveis para serem experimentados. Pois bem, esse é mais um problema, que para mim é um problema grave. Vejamos por este lado: quem veste uma roupa quer e precisa que a mesma lhe sirva e caia bem. Com os produtos de apoio, com os produtos informáticos de trabalho ou laser, a questão é a mesma! Temos de usar e gostar do que usamos, sentir que faz sentido e que com o que optamos, conseguimos melhores resultados. É também importante que nenhum destes produtos pareça, enquanto são usados junto de outras pessoas, não façam com que o utilizador seja de alguma forma visto, compreendido, ou até afastado, porque usa algo que o expõe, que o difere muito das pessoas que o rodeiam, com quem trabalha, ou mesmo a quem passa informação. É preciso uma normalização de tudo, para que tudo seja uma coisa completamente normal.
Se nós por cá achamos que há sistemas melhores que outros para quem tem deficiência visual? Sim, achamos. Achamos que há sistemas mais completos e com mais oferta de possibilidades que outros. Damos, como bem sabe, caro leitor, preferência aos produtos e sistemas Apple, mas foi a inicial falta de conhecimento, procedida pela necessidade de algo diferente do que conhecíamos até termos os primeiros contactos com sistema e produtos Apple que nos leva hoje a dizer que é preciso não nos limitarmos aos pequenos catálogos, ao que alguém disse que era bom e funcionava bem, à sugestão de alguém apenas, e sim, experimentar o diferente, porque tal como quem não tem DV, que gosta do ecrã com tantos fps, ou o sistema mais aberto, ou mais fechado, com determinada programação que vai mais de acordo com o que faz e com o que gosta, a pessoa com DV tem essas mesmas questões. Talvez não se preocupe com os fps, mas vai preocupar-se com a integração do leitor de ecrã com o sistema. Com toda a acessibilidade que há no sistema e o quanto a pessoa consegue fazer com. Isso; e fruto disso: a produtividade que passa a ter, a rapidez, a fluidez.
É por isto que digo: o sistema que serve para uns, pode não ser o mais adequado a outros. E felizmente que hoje em dia a informação não é tão limitada como antes e começa a ser mais premente que se compreenda que não se pode querer que pessoas cegas ou com baixa visão fiquem cingidas aos mesmos sistemas, aos mesmos programas. E claro, tenho de destacar que: a Apple, tem trazido para o público com as mais diferentes necessidades, as mais variadas hipóteses. Assunto que virá num próximo post, já a seguir, e que nos deixa, autores aqui do blogue, muito contentes.
Uma sugestão, caros pais, professores, apoiadores: informem-se junto das entidades de produtos para pessoas com deficiência visual acerca dos produtos que existem, desde sistemas, programas, periféricos, mas não limitem os vossos filhos, alunos, formandos, etc a um só sistema. Porque nisto da informática, é assim mais ou menos como a roupa: serve ou não serve. E sabe sempre bem quando encontramos um sistema que nos serve melhor.
Dar ao novo utilizador a oportunidade de experimentar o sistema, o programa, é como abrir mais uma janela que ele não tinha como saber que ela existia nem que a podia usar. E se essa janela for melhor que a anterior? Nunca se sabe, mas tanto melhor!
assino por baixo.
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